Autor: Thiago Lehmann ( Coala)
Resolvi fazer esse tutorial inspirado numa pergunta que um amigo meu fez sobre um desenho que acabei de terminar:
“Cara, de onde você tira idéia pra fazer essas coisas?”
Eu já ouvi essa pergunta inúmeras vezes.. Desenho faz algum tempo e as pessoas sempre me perguntam de onde diabos eu tiro as malditas idéias e como raios eu trabalho elas! A verdade é que é muito simples, qualquer um pode fazer, assim como desenhar, depende só do empenho de quem está trabalhando.
Gostaria de lembrar a galera que vai ler o tutorial que eu nunca fiz nenhum curso de desenho nem nada do gênero, nunca consegui me encaixar nos padrões de começar a desenhar barcos e frutas pra depois passar pras coisas que eu gosto. Muito menos curso de mangá, que considero um crime contra o estilo próprio. Ou seja, essas dicas vêm de um aprendizado pessoal, que adquiri através de alguns anos de prática. Queria lembrar também que eu não sou nenhum artista, nem considero meu estilo melhor do que o de ninguém, meu intuito com tudo isso é simplesmente passar uma das minhas formas de trabalhar, que considero bem prática e funciona como uma forma de gerar idéias originais. Quero destacar também que QUALQUER UM pode seguir o tutorial, desista daquela velha idéia de que ‘eu não sei desenhar, só sei fazer boneco palitinho’ porque isso é uma bobagem sem fim. Se você tem vontade, mãos a obra. No inicio vai ser difícil, mas assim como no photoshop rapidamente você desenvolve suas habilidades.
Finalizando a introdução eu gostaria de pedir ao pessoal pra comentar criticamente sobre o tutorial, porque através da repercussão dele eu vou pensar se devo prosseguir com tutoriais ou não.
Bem, vamos ao que interessa!
Primeiro Passo – A idéia inicial.
Para criar um personagem, a primeira coisa que se deve ter é seu conceito inicial. O que é isso? O conceito inicial é o que você quer criar: um guerreiro, uma arqueira, um monstro, um robô ou até mesmo um deus.. E por aí vai. Acho importante pensar nas características principais do seu personagem antes de começar a desenvolver a parte gráfica. Nesse tutorial eu vou utilizar o exemplo da criação de um deus, que foi o caso do ultimo personagem que criei.
Características do personagem:
1- Ele é o Deus do Tempo
2- Quero que ele tenha um aspecto místico, mas ainda não sei bem qual..
3- Ele tem o rosto oculto.
4- Para mim o Deus do Tempo é também o da morte, pois o tempo nos consome.
Segundo Passo – Referencia.
Um aspecto muito importante na criação de um personagem é a referencia que você utiliza. “Mas do que caralhos vocês está falando??” A referencia são as outras artes que você utilizou de base para ampliar sua visão sobre o personagem. Colocando em miúdos é uma espécie de pesquisa que você faz com objetivo de ter novas idéias e evitar repetir algumas. Isso é bom para impedir que você fique com uma visão fixa do que você quer, tornando as características do personagem mais flexíveis e sujeitas a modificações.
No meu caso eu costumo utilizar o DeviantArt como fonte de referencias. No site você encontra inúmeros artistas super habilidosos de diversos estilos e todos os seus trabalhos estão expostos a qualquer um que queira acessar. Fica a sugestão, isso é de cada um.
Lembre-se que a sua fonte deve estar sempre acessível para consultas futuras. A idéia aqui não é copiar, mas se você busca uma idéia para ‘relógio’, para o Deus do Tempo, fica mais simples de procurar os que já existem para poder desenvolver conceitos diversos deste objeto.
A partir desse momento fica mais fácil pensar, você já viu o que existe por aí e já sabe mais ou menos como quer criar a imagem do seu personagem, mas sabe também que pensar é fácil, difícil é colocar no papel. Daí vem a parte 3.
Terceiro Passo – Desenvolvimento.
Gastar papel é importante. Você não precisa torrar uma Bíblia de folhas, mas sempre separe umas 3 ou 4 para poder brincar. Tendo em vista os conceitos que você criou inicia-se o processo de criação do personagem como uma imagem. Neste ponto você decide se quer o seu personagem parado, andando, pulando, de frente, de costas.. e por aí vai. No caso do Deus do Tempo eu escolhi deixar ele bem de frente. Por se tratar de um deus de tamanha magnitude eu quero que ele tenha uma postura séria e poderosa. Associada a esta idéia de poder passa-se a trabalhar outras características que o personagem irá assumir.
3.1 – Criação de características. (vale lembrar que esse tópico é diferente do primeiro, essas são as idéias que você irá desenvolver baseado nas características prévias já citadas)
Utilizando como exemplo o nosso tiozão do tempo eu começo a pensar no aspecto físico do sujeito. Ele vai ter o rosto coberto com um manto porque combina bem com a místicidade que quero passar. Uma máscara talvez ficasse muito agressivo ou muito pessoal.
Como conseqüência eu quero que o manto cubra todo o corpo dele, passando também uma idéia de poder, algo mais clerical.. mais sério, garantindo o porte de nobre do nosso amigo. Em conjunto vem a idéia de morte, sempre encapuzada.. penso também em alguns crânios, só não sei bem onde.. ainda.
Quero que ele tenha dois braços, em cada um estará um artefato. Quais? Bem.. ele é o Deus do Tempo, é interessante que se tenha um ou mais relógios.. Mas onde? O cara vai segurar um relógio gigante? Não. Eu quero um cajado. Cajado inclui a idéia de poder e ainda posso somar isso ao relógio. Na outra mão vai uma coisa menos poderosa, penso numa adaga, um cálice ou uma lanterna.. Eu escolhi a lanterna nesse caso, pois achei que tem mais a ver.
Pronto, em pouco tempo eu criei um ‘fantasma’ do que vai ser o meu personagem final. Eu sei que vai ter cajado, vai ter lanterna e vai ter manto. Mas como vai ser?
3.2 – Criação de alternativas.
Nesse ponto você começa os rabiscos, chamados ‘sketches’. Pegue uma das folhas e SEM MEDO comece a rabiscar idéias que passaram na sua cabeça. É importante perceber que a maioria das pessoas que desenha tem dificuldade em torrar papel, ficam com uma espécie de trava, querendo fazer a versão final logo de cara, isso não é um bom hábito. Desenhar o personagem como um todo, portanto os objetos ou fazê-lo separadamente é opção de cada um, mas lembre-se de criar mais de uma alternativa para aquilo que você quer. Muitas vezes é possível alcançar idéias inesperadas através do desenho, ou até mesmo implementar a idéia que teve num objeto em outro.
No meu caso eu criei diversas opções de cajados e lanternas.. Fiz desenhos rápidos tanto do personagem portando-os quanto deles individualmente. Aproveitei para começar a desenvolver os acessórios mais simples que estariam conectados ao nosso Deus.
No caso eu adicionei algo no manto, como uma espécie de ‘armadura’ ou ‘coroa’, sempre gerando mais de uma alternativa.
Só pra vocês terem uma noção, essa é a car de uma das minhas folhas de sketch :]
3.3 – Seleção dos preferidos.
Agora é hora de filtrar, separar o bom do ruim, ou pelo menos o que você gostou do que você não gostou. Eliminando os indesejados inicia-se um refinamento do que foi selecionado.
Da mesma forma que no item 3.2 é importante a geração de alternativas e a produção dos elementos interagindo.
Lembrando que esses desenhos são sketches, eles não tem compromisso com qualidade nem visualidade, é somente uma forma de você pensar através do papel, como o rascunho de um texto. O refino da imagem é feito somente na versão final.
3.4 – Protótipo final.
Estamos quase passando para a versão final, mais ainda há um passo a ser tomado, que é a produção de um protótipo final. O que é isso? O protótipo é um sketch ligeiramente mais trabalhado, que é feito com intuito de simular o desenho que você irá fazer, com adição de alguns detalhes e sombras rápidas é possível ter uma noção do quanto o conjunto te agrada. Lembre-se que é importante fazer algo que te dê prazer, porque nesse caso há mais envolvimento e a tendência é ter ótimos resultados.
Tendo esse ultimo sketch pronto, iniciamos o quarto passo.
4 – Quarto Passo – Desenho “Oficial”
Finalizando o processo de conceituação das características do seu personagem inicia-se a produção da versão final. Essa toma tanto tempo quanto todas as outras etapas juntas, e é importante que se trabalhe bem os detalhes, valorizando o seu desenho. Boas idéias podem ser estragadas por preguiça ou desatenção, então, se está cansado pare um pouco e deixe o desenho para depois.
Algo que é importante lembrar é que esse procedimento que estou descrevendo não é necessariamente feito ‘numa tacada só’. Se as idéias não estão te agradando dê um pouco mais de tempo, guarde o que você já produziu e vá se distrair, com o tempo você terá mais segurança e capacidade para desenvolver o personagem da maneira que quer.
Durante a produção do desenho final ocorrem diversas mudanças no seu desenho. Você irá reparar isso porque ao fazer os detalhes surge a necessidade de incrementar os elementos. Como dobras no tecido ou jóias nos artefatos. Tudo isso torna o desenho mais interessante e mais rico. Não se prenda a tudo que já foi planejado, lembre-se que o desenho é seu e pode ser modificado da maneira que te agradar mais. Não esqueça dos detalhes que você já tinha pensado em adicionar antes, como os relógios ou os crânios, que não precisam transbordar pelas orelhas do sujeito, mas podem aparecer em detalhes como a roupa ou até mesmo o cenário.
4.1 – Sombreamento.
Obviamente que durante o processo de produção são adicionadas sombras aos elementos, mas é importante verificar esse quesito ao se terminar o trabalho. Com isso é possível dar volume e profundidade ao seu personagem e também passar a idéia de personagem ‘sombrio’ ou não.
4.2 – Cenário.
Honestamente eu não posso falar muito sobre cenários pois não costumo colocar nas minhas produções, o que é um grande erro. No caso desse desenho eu implementei pois achei que merecia. Como quero passar idéia de misticismo eu posicionei uns 3 planetas, ou luas, tanto faz, atrás do personagem. Coloquei-os no lado esquerdo porque chama menos atenção, além de preencher o espaço em branco da folha ainda ajuda a contextualizar o personagem. Lembre-se sempre que o cenário não pode chamar mais atenção que o personagem, nem deve ter traços muito fortes, caso o contrário os olhos de quem está vendo o desenho ficarão divididos, desvalorizando os detalhes do seu trabalho.
Quinto Passo – Finalização.
O quinto passo costuma ser ignorado pela maioria das pessoas que desenham. Após tanto trabalho e dedicação o desenhista tem certo receio de mostrar sua criação a outras pessoas. É importante ter autocrítica e saber receber as criticas dos outros. Essa é uma forma de desenvolver seu desenho, tanto esteticamente quanto com relação aos conceitos. Lembre-se que é sempre possível aprender mais e que ao criarmos algo a tendência é fechar os olhos para os erros e rebater comentários como se fossem ofensas desnecessárias. Vamos ser humildes! Posso dizer que todos os meus trabalhos possuem lados positivos e negativos e posso confirmar que sempre será assim. É impossível criar algo perfeito, estamos sempre nos aperfeiçoando e é por isso que é preciso saber ouvir.
Para finalizar, gostaria de relembrar que esse é um tutorial que pode ser seguido por todos, independente do grau de desenvolvimento em desenho.
Espero que vocês tenham gostado! Esse foi o meu primeiro tutorial e busquei ser bem direto e pessoal no conteúdo. Peço novamente que avaliem esse meu trabalho para que com isso eu possa melhorar minhas explicações e também o meu desenho!
Obrigado por ler!

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